Estamos no virar do século XIX. A Europa foi assolada por uma vaga de atentados anarquistas. Em Portugal, a Carbonária, uma facção terrorista, pretende derrubar o regime monárquico. Nas artes, o ambiente também é de crise. Os «Vencidos da Vida» já não se reúnem no Hotel Bragança, e o «Grupo do Leão» perdeu pujança. O povo antevê a mudança, e a monarquia está inquieta. Ramalho Ortigão, e sobretudo Eça de Queirós, escrevem obras de uma acuidade perturbadora acerca do que irá acontecer...
Através da história de uma das pinturas mais icónicas da história da arte em Portugal, O Fado, de José Malhoa, Jorge Miguel traça-nos uma maravilhosa e fascinante imagem do Portugal dos finais da Monarquia e inícios da República.
Jorge Miguel tem neste álbum um dos trabalhos que o afirmou claramente como um autor maior da banda desenhada portuguesa, quer como artista, quer como argumentista. E o facto de ele ter rumado a França pouco depois para construir a sua carreira como desenhador no mercado franco-belga, com uma mão-cheia de álbuns de sucesso (de que a Arte de Autor e A Seita editaram já anteriormente dois, Shanghai Dream, com argumento de Philippe Thirault, e Sapiens Imperium, com Sam Timel) foi certamente uma perda para o nosso mercado nacional, tão necessitado de uma variedade de obras, desde as mais “alternativas” ou “independentes”, até às que poderíamos apelidar de mainstream, capazes de tocar um público nacional bem mais alargado, de que O Fado Ilustrado é um excelente exemplo. Cruzando vários fios narrativos, uns ficcionais - as personagens que acabaram por inspirar Malhoa na criação do seu quadro e que aparecem nele - e outros históricos, reais, Jorge Miguel reconstitui “uma” história de como o quadro surgiu, e juntamente com ela traça-nos um fresco do Portugal do virar do século 19 para o início do século 20, fugindo aos clichés normais da BD histórica.